O Afogar de Ophelia
histórias esboçadas de Juliana Travassos
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
E esse hábito – mau hábito; que tem o ser humano de se apressar a julgar a pessoa que se vê a seu lado – a julgar suas palavras, seus actos; porquê? E se olhar seu reflexo no espelho em primeiro dos primeiros? Verá a beleza da alma? Ou, ao invés, verá um desfocar de tal modo assombração, aberração que o único modo de escapar à sua própria fealdade é realçar a dos outros?
sábado, 23 de outubro de 2010
O salão está deliciosamente repleto de pares dançantes! As cores dos vestidos que as mulheres, com tamanha elegância, envergam; exibem, os colorantes magníficos que pintam de cor o mármore neutro do chão, riem-se os pares, um rubor virginal em face mais modestas, ao bailarem, os saiões rodopiam, em espiral, tudo se mescla, tudo se transfigura numa só mancha de um chapitô. A melodia é vincada, forte, marca presença da subida, da ascensão, o órgão atinge a sua apoteose... todo o bailado se ergue e os tacões do sapatos das mulheres embatem contra o chão, os rostos perdem as suas formas - transfiguram-se em máscaras de prata, onde se esculpem faces clássicas, de cabelos ondulados como os de Afrodite, e o cantar que se escuta, a melodia, é uma perfeição que se assemelha aos músicos de Orfeu. Enquanto as teclas se pressionam, o tenor invade o salão e tudo se dissolve, tudo rodopia, tudo rodopia, com tamanha rapidez, que as consciências se perdem em tamanho desfocar...! O perfume é de jasmim, é de cortes imperiais chinesas... as sedas dos vestidos transportam até aos confins do Oriente os convidados, que em seus lábios entreabertos e olhos pasmados p'la beleza, beleza estrondosa que jamais contemplaram... do que a que contemplam nesta hora... é o anseio p'lo qual não se anseia; é um botão de rosa que desabrocha numa chávena de chá e é bebida nas cortes francesas durante séculos passados, são os passeios p'los jardins parisienses, nas gôndolas p'los canais de Veneza, é um fantasiar - um não ocorrer, um sonhar e pasmar... é um beijo que se esvanece cedo demais, o perfume é de sândalo, que arde como incenso sobre oiro, essa fragrância de sândalo é a mesma que a tua... todo o teu perfume invade um salão... os convidados dançam, jamais se estafam... mas eu me sento, entre caxemiras e veludos, sinto a sonolência tomar o meu corpo, que cansado, desvia seu olhar para um vítreo cálice - que começou como que, a dissolver-se, deixando somente… as pálpebras pesadas, um ruído hipnótico ressonou-lhe ao ouvido, era baixo e compassado, desfocava meu olhar, desconcertava seus lábios, o líquido rubi que enchia o cálice desfocava-se... todos os contornos se perdiam, enquanto a minha respiração se quebrava...
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Hoje olhando-me ao espelho - e como mulher que sou, gosto de me olhar ao espelho -, reparei que uma ruga se traçava ao longo na minha face esquerda, junto à linha do sorriso, linhas de sorrisos, mas como tenho eu, com esta terna idade, linhas de sorrisos? E como tenho eu linhas de sorrisos, se me dão de refeição tristezas. Ora, tristezas há-as como as chuvas, todos guardados tristezas no peito - o segredo está (não em recalcá-las) mas em valorizar a cada dia aquilo que possuímos, ainda que pouco seja, todos guardados tristezas e oiros, junto ao peito. E penteando os meus cabelos - que caiem em canudos dourados p'lo meu peito -, questionei-me, perguntei-me: o porquê de tanta mágoa, de tanto pranto... quando no exterior, que estas paredes encerram, o céu se eleva em azul bruto, como que uma cúpula que tudo encerra, que até os pássaros são cercados na sua enorme gaiola - já dizia o mestre Albert Einstein. Tudo o que escuto são sinfonias desafinadas de mais para se encontrar coerência nelas; os séculos passaram por este corpo que hoje transporto e ainda não apodreceu... dia algum apodrecerá? O cheiro pútrido já devia comichar no nariz das enfermeiras que ousam subir as escadas para me vir dar a injecção de morfina, para se cessarem as dores... mas os sonhos doces, demasiado doces que se tornaram diabéticos, moldam-se com isto. E mais logo, quando o relógio de parede, com seu pesado badalar de oiro, marcar as horas do crepúsculo, me virá a cigana com as suas cartas do Tarot, para me ler o que chamam a Sina, que outros chamam de Fado e que vulgarmente é chamado de Destino. Independentemente do título; toca na campainha de todos... Tão belo, tão bonito - porque viaja em redor do mundo, quiçá perdido, quiçá achado, algum deles o virá buscar. Puxo os cabelos para detrás da nuca: hoje não sou quem sempre fui. Um sorriso demasiado maléfico se esboça nos meus lábios, pintados de um tom escuro de vermelho; todos estão procurando por algo, algo que lhes encha a existência - mas quem nos irá alimentar no hoje? Ergo-me do meu cadeirão real, habito rodeada de luxos, sedas, pérolas e oiros - e de pesadelos que se avivam quando a lua vai alta nos céus nocturnos e o frio aperta...
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