sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Hoje olhando-me ao espelho - e como mulher que sou, gosto de me olhar ao espelho -, reparei que uma ruga se traçava ao longo na minha face esquerda, junto à linha do sorriso, linhas de sorrisos, mas como tenho eu, com esta terna idade, linhas de sorrisos? E como tenho eu linhas de sorrisos, se me dão de refeição tristezas. Ora, tristezas há-as como as chuvas, todos guardados tristezas no peito - o segredo está (não em recalcá-las) mas em valorizar a cada dia aquilo que possuímos, ainda que pouco seja, todos guardados tristezas e oiros, junto ao peito. E penteando os meus cabelos - que caiem em canudos dourados p'lo meu peito -, questionei-me, perguntei-me: o porquê de tanta mágoa, de tanto pranto... quando no exterior, que estas paredes encerram, o céu se eleva em azul bruto, como que uma cúpula que tudo encerra, que até os pássaros são cercados na sua enorme gaiola - já dizia o mestre Albert Einstein. Tudo o que escuto são sinfonias desafinadas de mais para se encontrar coerência nelas; os séculos passaram por este corpo que hoje transporto e ainda não apodreceu... dia algum apodrecerá? O cheiro pútrido já devia comichar no nariz das enfermeiras que ousam subir as escadas para me vir dar a injecção de morfina, para se cessarem as dores... mas os sonhos doces, demasiado doces que se tornaram diabéticos, moldam-se com isto. E mais logo, quando o relógio de parede, com seu pesado badalar de oiro, marcar as horas do crepúsculo, me virá a cigana com as suas cartas do Tarot, para me ler o que chamam a Sina, que outros chamam de Fado e que vulgarmente é chamado de Destino. Independentemente do título; toca na campainha de todos... Tão belo, tão bonito - porque viaja em redor do mundo, quiçá perdido, quiçá achado, algum deles o virá buscar. Puxo os cabelos para detrás da nuca: hoje não sou quem sempre fui. Um sorriso demasiado maléfico se esboça nos meus lábios, pintados de um tom escuro de vermelho; todos estão procurando por algo, algo que lhes encha a existência - mas quem nos irá alimentar no hoje? Ergo-me do meu cadeirão real, habito rodeada de luxos, sedas, pérolas e oiros - e de pesadelos que se avivam quando a lua vai alta nos céus nocturnos e o frio aperta...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Bonito texto, Juliana. Muito intimista, como intimista é tudo o que escreves...
ResponderEliminarParabéns.